domingo, 17 de março de 2024

A importância do Tríduo Pascal

Hoje o Cantinho, por Fernando Ilídio, vai responder a sete perguntas colocadas pelos nossos seguidores. 

Tríduo Pascal? O que é?

São três dias em que celebramos o centro da nossa fé: a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus. Não podemos olhar para a Páscoa como um dia isolado, fazê-lo seria ignorar parte importante deste percurso. No Tríduo Pascal acompanhamos Jesus na sua passagem da morte à vida.

É um tempo favorável para confrontar a nossa vida com a de Jesus que, por nós, vai à paixão, e para nos deixarmos transformar pelo seu amor.

O Porquê das variações da data da Páscoa?

 Os nossos irmãos judeus, celebram a Páscoa (Pesach) no dia 14 do mês de Nissan – que é o primeiro mês do calendário judaico. dado que esta data podia ocorrer em qualquer dia da semana, e a ressurreição deve ser celebrada ao domingo, no Concílio de Niceia, no ano de 325 d.c., foi decidido que esta solenidade devia ocorrer no domingo após a primeira lua cheia do equinócio da primavera.

Isto faz com que a data da Páscoa possa variar entre os dias 22 de março e 25 de abril. Estando ligada à primavera, a Páscoa recorda-nos a abundância da vida e da luz que o Ressuscitado nos oferece.

Como se percebe a ligação entre as celebrações que fazem parte do tríduo?

É muito interessante que estes dias, embora com celebrações e momentos muito diferentes entre si, funcionem como uma única celebração que começa na quinta-feira ao final do dia, com a missa vespertina da Ceia do Senhor, e termina com a Vigília Pascal.

Um sinal claro disso é que a bênção final só é dada na Vigília Pascal, estando ausente na quinta e sexta-feira. Com isto, a liturgia sublinha que celebramos um só mistério que não se interrompe.

Qual a importância do lava-pés na Quinta-feira Santa?

Ao instituir a eucaristia e o sacerdócio, Jesus não deixou escrito nenhum tratado, mas inscreveu-o na vida daqueles que participaram nesta ceia. Ao baixar-se para lavar os pés, Jesus mostra o modo como o sacerdócio deve ser vivido: estar no meio de nós como aquele que serve, como o humilde.

Este gesto é para nós um desafio grande que nos convida a pensar como, no dia-a-dia, também nós somos chamados a descer às periferias humanas que estão à nossa volta.

E como aquele que serve é aquele que está vigilante, terminada a eucaristia, segue-se um momento de oração junto do Santíssimo Sacramento, para acompanhar Jesus no Jardim das Oliveiras.

Porque não há missa na Sexta-Feira Santa?

A Sexta-Feira Santa é dia de jejum e abstinência. É o dia em que celebramos a Paixão e a morte de Jesus. As leituras deste dia oferecem-nos uma composição do lugar que nos permite contemplar Jesus nesta hora decisiva da sua vida, a ponto de nos atrair a si, e num gesto simples adorar a cruz – o sinal maior do amor de Deus por nós.

Ainda que não se celebre eucaristia, porque celebramos a morte de Jesus, não somos privados de comungar o seu Corpo vivo, ele é o alimento que nos faz passar da morte à vida

O Porquê sair de casa à noite para participar na Vigília Pascal?

Ao participar na Vigília Pascal estamos a reviver a História da Salvação, que é também para nós história de salvação. Começamos a celebração no exterior da igreja, às escuras e, seguindo o círio pascal, seguimos o próprio Cristo que pouco a pouco nos vai iluminando para ouvir a narração da nossa libertação, a libertação que Jesus nos dá

Neste enorme e revitalizador exercício de memória coletiva, somos envolvidos progressivamente pela luz que culmina na alegria do encontro com o Ele, Jesus Ressuscitado.

A água tem também um papel fundamental. Tradicionalmente celebra-se o batismo dos adultos e todos renovamos a promessa de seguir na glória D´Aquele que acompanhámos na paixão, testemunhando com a nossa vida que Ele está vivo.

Preceito pascal? O que quer dizer?

Esta expressão caiu um pouco em desuso, mas a Igreja mantém entre os seus preceitos comungar o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa e, estreitamente ligado a este, confessar os pecados ao menos uma vez por ano.

Com estes preceitos, mais do que cumprir a tarefa que é prescrita, a Igreja deseja com esperança, que o cristão possa participar plenamente neste mistério que celebramos. Por este motivo, devemos fazer os possíveis por procurar o sacramento da reconciliação, preparando-nos assim para receber o Senhor Ressuscitado de novo na nossa vida.

Uma vez que celebramos o núcleo da fé cristã, devemos fazer os possíveis por participar ativamente com a nossa comunidade pois caminhando em conjunto é mais fácil percorrer o caminho. Como eu costumo dizer, Juntos somos mais fortes e mais fortes estamos mais perto de Cristo.


Fernando Ilidio in Catinho da Teologia® - 16 de Março de 2024

Fernando Ilídio com já alguns textos publicados e algumas entrevistas é dos mais promissores teólogos católicos. Com 44 anos, casado e com uma filha, é formado em Teologia pelo Centro de Cultura Católica do Porto, onde concluiu os três anos do curso básico. Investigador e Fundador do CDT (Cantinho da Teologia). É Acólito, Ministro da Comunhão, participa como representante do grupo de Acólitos de Matosinhos no Concelho Pastoral Paroquial, fez parte do grupo de CPM (Preparação para o matrimonio), foi membro da equipa Pastoral Vocacional, formador do Grupo de Acólitos da Paróquia de Matosinhos e membro da equipa de Liturgia.

V Domingo do Tempo da Quaresma - Ano B

PRIMEIRA LEITURA
Jer 31, 31-34

«Estabelecerei uma aliança nova e não mais recordarei os seus pecados»

Leitura do Livro de Jeremias

Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. Não será como a aliança que firmei com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egipto, aliança que eles violaram, embora Eu tivesse domínio sobre eles, diz o Senhor. Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, naqueles dias, diz o Senhor: Hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Já não terão de se instruir uns aos outros, nem de dizer cada um a seu irmão: «Aprendei a conhecer o Senhor». Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas.

Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL
Salmo 50 (51), 3-4.12-13.14-15 (R. 12a)

Refrão: Dai-me, Senhor, um coração puro. Repete-se

Compadecei-Vos de mim, ó Deus,
pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia,
apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas. Refrão

Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade. Refrão

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Ensinarei aos pecadores os vossos caminhos
e os transviados hão-de voltar para Vós. Refrão

SEGUNDA LEITURA
Hebr 5, 7-9

«Aprendeu a obediência e tornou-se causa de salvação eterna»

Leitura da Epístola aos Hebreus

Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna.

Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO
Jo 12, 26

Refrão: Louvor a Vós, Jesus Cristo,
Rei da eterna glória. Repete-se

Se alguém Me quiser servir,
que Me siga, diz o Senhor,
e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. Refrão

EVANGELHO
Jo 12, 20-33

«Se o grão de trigo, lançado à terra, morrer, dará muito fruto»

 Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». Filipe foi dizê-lo a André; e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer.

Palavra da salvação.

domingo, 30 de julho de 2023

Domingo XVII do Tempo Comum Ano A

PRIMEIRA LEITURA
1 Reis 3, 5.7-12

«Pediste a sabedoria»

Leitura do Primeiro Livro dos Reis
Naqueles dias, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: «Pede o que quiseres». Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?». Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: «Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti».

Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL
Sal. 118 (119), 57.72.76-77.127-128.129-130 (R . 97a )

Quanto amo, Senhor, a vossa lei!

Senhor, eu disse: A minha herança
é cumprir as vossas palavras.
Para mim vale mais a lei da vossa boca
do que milhões em ouro e prata. Refrão

Console-me a vossa bondade,
segundo a promessa feita ao vosso servo.
Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei,
porque a vossa lei faz as minhas delícias. Refrão

Por isso, eu amo os vossos mandamentos,
mais que o ouro, o ouro mais fino.
Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos
e detesto todo o caminho da mentira. Refrão
São admiráveis as vossas ordens,
por isso, a minha alma as observa.
A manifestação das vossas palavras ilumina
e dá inteligência aos simples. Refrão

SEGUNDA LEITURA
Rom 8, 28-30

«Predestinou-nos para sermos conformes à imagem do seu Filho»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. E àqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou.

Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO
cf. Mt 11, 25

Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos
os mistérios do reino.

EVANGELHO
Mt 13, 44-52

«Vendeu tudo quanto possuía para comprar aquele campo»vangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».

Palavra da salvação.


Forma breve Mt 13, 44-46

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola».

Palavra da salvação.

sábado, 22 de julho de 2023

Domingo XVI do Tempo Comum Ano A

PRIMEIRA LEITURA
Sab 12, 13.16-19

«Após o pecado, dais lugar ao arrependimento»

Leitura do Livro da Sabedoria

Não há Deus, além de Vós, que tenha cuidado de todas as coisas; a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente. O vosso poder é o princípio da justiça e o vosso domínio soberano torna-Vos indulgente para com todos. Mostrais a vossa força aos que não acreditam na vossa omni­potência e confundis a audácia daqueles que a conhecem. Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência, porque sempre podeis usar da força quando quiserdes. Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.

Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL
Salmo 85 (86), 5-6.9-10.15-16a (R. 5a)

Refrão: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo. Repete-se

Vós, Senhor, sois bom e indulgente,
cheio de misericórdia para com todos
 os que Vos invocam.
Ouvi, Senhor, a minha oração,
atendei a voz da minha súplica. Refrão

Todos os povos que criastes virão adorar-Vos,
Senhor,
e glorificar o vosso nome,
porque Vós sois grande e operais maravilhas,
Vós sois o único Deus. Refrão

Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo,
paciente e cheio de misericórdia e fidelidade.
Voltai para mim os vossos olhos
e tende piedade de mim. Refrão

SEGUNDA LEITURA
Rom 8, 26-27

«O Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos: O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, pois é em conformidade com Deus que o Espírito intercede pelos cristãos.

Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO
cf. Mt 11, 25

Refrão: Aleluia. Repete-se
Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos
 os mistérios do reino. Refrão

EVANGELHO
Mt 13, 24-43

«Deixai-os crescer ambos até à ceifa»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?’. Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. ‘Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’». Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo». Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão-de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. E os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».

Palavra da salvação.

domingo, 28 de maio de 2023

Domingo de Pentecostes

PRIMEIRA LEITURA
Actos 2, 1-11

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».

Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL
Salmo 103 (104), 1ab e 24ac.29bc-30.31.34

Refrão: Enviai, Senhor, o vosso Espírito
e renovai a face da terra. Repete-se

Ou: Mandai, Senhor o vosso Espírito,
e renovai a terra. Repete-se

Ou: Aleluia. Repete-se

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas. Refrão

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra. Refrão

Glória a Deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu terei alegria no Senhor. Refrão

SEGUNDA LEITURA
1 Cor 12, 3b-7.12-13

Todos nós fomos baptizados num só Espírito, para formarmos um só Corpo

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios

Irmãos: Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela acção do Espírito Santo. De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.

Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Refrão: Aleluia. Repete-se

Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor. Refrão

EVANGELHO
Jo 20, 19-23

Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós: Recebei o Espírito Santo


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Palavra da salvação.


domingo, 14 de maio de 2023

Domingo VI da Páscoa - Ano A

PRIMEIRA LEITURA
Actos 8, 5-8.14-17

«Impunham as mãos sobre eles e eles recebiam o Espírito Santo»

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias, Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve muita alegria naquela cidade. Quando os Apóstolos que estavam em Jerusalém ouviram dizer que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. Quando chegaram lá, rezaram pelos samaritanos, para que recebessem o Espírito Santo, que ainda não tinha descido sobre eles: só estavam baptizados em nome do Senhor Jesus. Então impunham-lhes as mãos e eles recebiam o Espírito Santo.

Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL
Salmo 65 (66)

Refrão: A terra inteira aclame o Senhor. Repete-se
Ou: Aleluia. Repete-se

Aclamai a Deus, terra inteira,
cantai a glória do seu nome,
celebrai os seus louvores,
dizei a Deus: «Maravilhosas são as vossas obras». Refrão

«A terra inteira Vos adore e celebre,
entoe hinos ao vosso nome».
Vinde contemplar as obras de Deus,
admirável na sua acção pelos homens. Refrão

Todos os que temeis a Deus, vinde e ouvi,
vou narrar-vos quanto Ele fez por mim.
Bendito seja Deus que não rejeitou a minha prece,
nem me retirou a sua misericórdia. Refrão

SEGUNDA LEITURA
1 Pedro 3, 15-18

«Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito»

Leitura da Primeira Epístola de São Pedro

Caríssimos: Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança. Mas seja com brandura e respeito, conservando uma boa consciência, para que, naquilo mesmo em que fordes caluniados, sejam confundidos os que dizem mal do vosso bom procedimento em Cristo. Mais vale padecer por fazer o bem, se for essa a vontade de Deus, do que por fazer o mal. Na verdade, Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados – o Justo pelos injustos – para nos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito.

Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO
Jo 14, 23

Refrão: Aleluia. Repete-se
Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.
Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada. Refrão

EVANGELHO
Jo 14, 15-21

«Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Defensor»

+Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

Palavra da salvação


quarta-feira, 10 de maio de 2023

“O Sínodo – tempo para a escuta e mudança”

O caminho sinodal da Igreja Católica.

Em todo o mundo há uma reflexão de todo o povo de Deus sobre a identidade e missão da comunidade eclesial hoje. Em muitos países, incluindo Portugal, o primeiro ano do percurso levou a um enfoque particular sobre as modalidades de presença e de ação dos crentes na sociedade. Nesse esforço, a pesquisa teológica é chamada a dar sua própria contribuição.

Debatemos este tema com Fernando Ilídio.

Fernando Ilídio com já alguns textos publicados e algumas entrevistas é dos mais promissores teólogos católicos. Com 43 anos, casado e com uma filha, é formado em Teologia pelo Centro de Cultura Católica do Porto, onde concluiu os três anos do curso básico. Investigador e Fundador do CDT (Cantinho da Teologia). É Acólito, Ministro da Comunhão, participa como representante do grupo de Acólitos de Matosinhos no Concelho Pastoral Paroquial, fez parte do grupo de CPM (Preparação para o matrimonio), foi membro da equipa Pastoral Vocacional, formador do Grupo de Acólitos da Paróquia de Matosinhos e membro da equipa de Liturgia.

O Sínodo – tempo para escuta e mudança

 

 

 Ilídio, entre as várias instâncias, o caminho sinodal em curso convida-nos a rever de forma continuada a relação entre a Igreja e o mundo. Esta última é uma das questões mais relevantes para si. Sobre este tema, que contribuição pode oferecer a reflexão teológica?

O percurso sinodal começou por privilegiar a dinâmica da escuta. Em muitas realidades foi muito mais cansativo e frustrante do que se imaginava. Uma das razões, talvez, é que a escuta é uma prática mais fácil de dizer do que de fazer, com a qual perdemos, e em particular na Igreja Católica, traquejo e familiaridade. Para quem ensina como se fosse um hábito, por exemplo, é difícil se colocar na postura de escuta e a meu ver, é um dos grandes problemas e que não permite a melhor comunicação entre as partes.

Na maior parte das vezes quando os professores se calam e pedem a alguém para falar, estão quase sempre em postura de avaliador de um desempenho, e os interlocutores sabem disso. Como agente formador, sei do enorme esforço que é preciso para ficar a frente de um adolescente e simplesmente ouvi-lo, pensando que ele realmente tem algo para me dizer e pronto. É muito mais fácil posicionar-me numa atitude de quem faz o outro falar, principalmente porque quer entrar no seu pensamento e assim explicar de forma mais compreensível, ou mostrando-me educado e cortês deixando o outro falar, mas mais do que qualquer outra coisa para reduzir o limiar da suspeita e depois estimulá-lo a me ouvir, ou pior ainda deixá-lo desabafar e depois falar sem que o que eu tinha a dizer tenha sido minimamente tocado pelo tempo da escuta.

Nas últimas décadas, temo que a Igreja Católica Portuguesa tenha se preocupado tanto em ensinar - e vamos deixar de lado se por necessidade ou por excesso de zelo, se com mais ou menos sucesso - que às vezes nem se lembra como se faz a escuta. E não (ou não só) em sentido moral, mas exatamente como postura, hábito, atitude.

Os teólogos fazem parte da Igreja e participam dos mesmos esforços. Muitos de nós também estão mais preocupados, por exemplo, com a exatidão das respostas ou em transformar cada interlocução numa pergunta, que eles simplesmente não conseguem escutar. No entanto, uma das funções da teologia é também a de "escutar com atenção" (Gaudium et spes 44).

A Teologia

 

Ilídio, nos últimos tempos, há várias publicações tentando apresentar a teologia a um público que vai além dos estudiosos da disciplina. Mas, numa cultura Hiper técnica e setorial como a nossa, para que ainda serve a teologia?

- Depende do que se entende por "teologia", é claro. De certo ponto de vista, quem está em alguma relação de fé não pode deixar de fazer teologia. Escolher uma fórmula ao invés de outra para rezar uma oração, adotar um raciocínio ao invés de outro para justificar uma escolha de vida de fé, ler um texto sagrado de acordo com uma forma de interpretação ou outra (mas eu poderia citar outros 10 exemplos), são todas atividades teológicas.

Considero que todo o crente é também um teólogo, queira ou não, da mesma forma que um pai também é um pedagogo, queira ou não, porque cada gesto e cada palavra que ele dirige para os seus filhos terá uma consequência em vez de outra. Assim como nenhum pai deve ter um diploma em pedagogia, da mesma forma nenhum batizado deve ter um diploma em teologia, sendo que pode ser útil reter uma certa sabedoria ou conhecimento, ou pelo mesmo que exista algum “especialista”.

Insistindo na analogia, como existem diferentes escolas pedagógicas, também existem diferentes escolas teológicas. Neste momento penso que precisaríamos não de "teólogos" generalistas, mas de estudiosos da cristologia (uma das disciplinas em que se divide o estudo académico) treinados para desmascarar o gnosticismo e o pelagianismo contra os quais o Papa Francisco frequentemente se manifesta e que tanto dano semeiam.

Precisaríamos também de especialistas em lógica sacramental para desbloquear uma paralisia que já se tornou patológica entre teoria e práticas da crença.

Seriam necessários ainda mais biblistas e exegetas que soubessem vencer a tentação de reduzir as Escrituras ao seu ensinamento moral ou à sua filologia autorreferencial.

Precisaríamos de apologistas combativos que combatam qualquer tentativa de reduzir a religião cristã a um conjunto de valores civis, que possam ser explorados pelos poderes políticos e económicos.

Seriam necessários divulgadores imaginativos que não criem mais um movimento ou grupo identitário em torno de seu carisma pessoal, mas que ofereçam a todos os sujeitos do povo de Deus a possibilidade de usar as palavras da nossa tradição para atravessarmos juntos estes nossos tempos, entremeados de medos e de graças.

Acima de tudo, mas é um juízo muito pessoal, seriam necessários canonistas para levar de volta o direito canónico e a jurisprudência ao seu papel de cuidadores da tensão em direção à justiça, e não apenas justificativas para a impossibilidade de uma redenção, se não a preços quase insustentáveis para a vida.

O Magistério

O Papa Francisco já nos habituou a um estilo do qual dificilmente se voltará atrás. O seu pontificado até agora caracterizou-se por uma proposta magistral que leva em consideração o passar do tempo, a cultura, os contextos e as situações. Poderíamos, nesse sentido, falar de um magistério em contínua evolução?

 

- Seria difícil para mim dizer o contrário, ou seja, que o magistério não evolui, no sentido de que nunca muda. Mas não é uma novidade de Francisco. Vou tentar explicar-me melhor. Na Igreja Católica chamamos de "magistério" a tarefa da Igreja de instruir e supervisionar as teorias e práticas da fidelidade a Cristo.

Hoje os detentores do mais alto magistério são os bispos, com algumas prerrogativas próprias do bispo de Roma. Claro que há ensinamentos magistrais que chegaram a uma forma definitiva (por exemplo "Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem", ou "Maria é a mãe de Deus"), mas nem por isso o esforço para compreender cada vez melhor essas verdades, ou usá-los como raízes de um estilo de vida, está concluído de uma vez por todas! Ainda há muito a ser entendido e sobre o qual, portanto, também, no caso, instruir e supervisionar.

Além disso, há questões que podem ser reformadas periodicamente (São Pedro, por exemplo, entendeu melhor depois de seu encontro com o centurião romano, Cornélio, o que significava "anunciar a todos as gentes" e também depois daquele episódio mudou a prática de circuncisão). Depois, há elementos que é indispensável atualizar, retornando obviamente cada vez à fonte da verdade que é Jesus Cristo.

Finalmente, há também "discussões doutrinais, morais e pastorais" que podem e devem ser resolvidas sem o magistério (cf. Amoris laetitia 3).  Num capítulo de “Teologia do bar”, o Teólogo Italiano Marco Ronconi, tenta colocar isso de uma forma um pouco mais divertida: “o magistério não visa encontrar uma formulação para cada problema que nos proteja de todo erro possível, de forma que devemos esperar os seus pronunciamentos eternos e imutáveis para todas as coisas”. Identifico-me muito com isto.

Por outro lado, o fato do seu ensinamento nem sempre ser eterno e imutável não nos autoriza a considerá-lo irrelevante. O magistério, na sua própria existência, lembra que entre idolatrar a lei - iludindo-se de que na vida há sempre um procedimento que garante a inocência diante de um juiz disposto a nos condenar - e nomear-se catalogadores individuais do bem e do mal – elegendo o próprio eu como Deus - está a liberdade do Evangelho, a cujo serviço também está o magistério.

No entanto, se quiserem uma explicação melhor, recomendo um belo texto magistral: a constituição Dei Verbum no n. 10. Ou dois livros fascinantes de teologia: O desenvolvimento do dogma católico, publicado por Maurizio Flick e Zoltan Alszeghy em 1967; O Magistério na Igreja Católica, publicado por Francis Sullivan em 1983.

 

A Sagrada Escritura

 

Há investigações sociológicas que mostram um aumento considerável do distanciamento, e ignorância, de muitos Portugueses no que diz respeito à educação religiosa e ao conhecimento da Bíblia. No entanto, o texto bíblico é fundamental para iniciar-se num caminho de fé, para conhecer o cristianismo e para compreender uma parte fundamental da cultura europeia e mundial. Mas, na sua opinião, o que a Bíblia pode comunicar à cultura atual?

 

Peço desculpa se respondo com uma brincadeira: mas Bíblia sozinha não comunica nada. O que faz a diferença é quem a lê e como. Não vou repetir aqui as motivações - ainda que sacrossantas - com que crentes e não crentes, intelectuais e artistas, periodicamente invocam uma difusão mais ampla do texto bíblico. Eu concordo plenamente com eles. O problema não é a teoria, mas as práticas de leitura.

Por um lado, a Bíblia é assustadora porque é usada como "Palavra de Deus" até mesmo por fundamentalistas, ou atemoriza pelo tamanho e pela dificuldade objetiva de muitos dos seus textos. Por outro lado, estão muito na moda aqueles que a usam como reservatório de respostas para os seus problemas, ou manual de autorrealização individual.

A Bíblia não é algo que precisa de quatro diplomas antes de se poder usá-la, mas também não é algo que existe em primeiro lugar para mim, como se eu fosse o centro do universo e Deus não tivesse mais nada que fazer a não ser dizer-me coisas, fazendo-me sentir um idiota quando não as entendo, já que as escondeu em textos de entendimento não tão imediatos.

Quem quiser entender a intenção de quem a escreveu - diz a Dei Verbum 12 - "deve pesquisar com atenção" e, pelo menos segundo a própria Bíblia, o pior é a "explicação privada" (2Pd 1,20-21); não é por acaso que uma das práticas mais antigas da Bíblia é a lectio divina. Ora, esta “com atenção” pressupõe uma ou mais competências (e aqui entram todos os múltiplos estudos ou conhecimentos práticos deveriam ser colocados mais em circulação), mas assim se retorna à primeira das perguntas desta nossa conversa.

Para terminar, o caminho começa desta forma: primeiro junto com Jesus. E, depois, junto com os irmãos e as irmãs, os fiéis discípulos de Jesus! Digo isso com muita força e convicção: caminhamos juntos, com Jesus, com Jesus Senhor que está vivo, pelas estradas do mundo! Aqui está a chave de cada sínodo, de cada caminhar juntos! O primado vai para a escuta do Senhor, da sua Palavra, do que o Espírito Santo diz às Igrejas e aos fiéis. Do contrário, até podemos caminhar com os outros, mas não saberemos para onde ir, que estrada seguir, porque só ele é o caminho.

E se nós, cristãos, somos "aqueles do caminho", somos aqueles que têm Jesus como caminho! "Eu sou o caminho, a verdade, a vida!" (Jo 14, 6).

10/03/2023